The Secret Daughter – Cap 1

16/09/2010 § Deixe um comentário

By Anderson Patrick…..

Às seis da manhã, o Estabelecimento Prisional de Puraquequara confinou todos os detidos às suas celas.

No exterior dos muros de tijolo, os manifestantes começavam a reunir-se em protesto contra a primeira execução em treze anos no Amazonas. Desumano, diziam os cartazes. Cruel e invulgar. Nunca deviam ter ido buscar o ” Pulmao do mundo ” ao seu retiro. A pena de morte era caprichosa e nao responsável.

Uma multidão igualmente grande manifestava-se no sentido contrário. Cruel e invulgar ainda era bom demais para Cley Lee Holmes. Mandem-no para a cadeira elétrica. Fritem-no.

Valia a pena ir buscar a cadeira elétrica para se executar o candidato número trezentos e sessenta e dois… ou melhor, deviam regressar aos enforcamentos.

No “corredor da morte”, para onde fora trazido na noite anterior, Cley Lee Holmes acomodou o seu pequeno corpo mais confortavelmente no beliche solitário da cela e ignorou-os a todos. Tinha olhos azuis lacrimejantes, rosto afilado e corpo arqueado e magro. Depois de trinta anos a mascar chicletes e a beber refrigerantes, tinha os dentes tortos, manchados e meio podres.

Gostava de palitá-los com a unha. Não era, sem sombra de dúvida, um homem agradável ou brilhante. Tratava-se antes de uma criatura calada e, na maioria das vezes, indiferente. Por vezes, era difícil lembrar exatamente o que aquelas mãos pequenas e de ossos finos tinham feito.

Em Janeiro, quando o patrick chegara ao fim da moratória do Supremo Tribunal sobre execuções, atirando Gilmore para frente do pelotão de execução, deixara de haver dúvidas de que o Amazonas restabeleceria a pena de morte. E deixara de haver dúvidas também de que cley Lee Holmes seria o primeiro a abater.

Talvez porque, quando o juiz que ia pronunciar a sentença lhe perguntou o que tinha ele a dizer sobre raptar, torturar e assassinar seis crianças, Cley Lee tivesse dito: “Bem, Meritíssimo, para resumir, quem me dera ter outra à mão!” Disseram-me que correste com o pastor. Bem me parecia que não pretendias seguir os caminhos do Senhor.

Não.

Nenhuma absolvição dos pecados de cley Lee?

Não.

Vá lá, cley Lee. Daniel  inclinou-se para frente e fincou os cotovelos nos joelhos. Sabes o que quero ouvir. Hoje é o teu último dia. Sabes que não haverá perdão. Acabou-se. Última oportunidade de colocar as contas em dia. Da tua boca para a primeira página.

Cley  Lee acabou o frango, fez estalar os lábios engordurados, e…Vai morrer sozinho, cley  Lee. Talvez isso te pareça bom agora, mas no momento em que te amarrarem à cadeira elétrica não será a mesma coisa. Diz-me como se chamam. Posso mandar vir a tua mulher karina para junto de ti. E o teu bebê. Dar-te algum apoio, proporcionar-te a presença da tua família no teu último dia aqui na terra.

Nessa momento Cley  Lee mergulhou três dedos no meio do bolo de chocolate. Arrancou metade, abriu-lhe um buraco como se fosse uma escavadeira e, com o bolo na palma da mão, começou a lamber o recheio.

Até pago tudo isso prosseguiu Daniel, num derradeiro e monumental esforço para um homem que recebia um salário de treta, fato que ambos conheciam. Vá lá. Sabemos que és casado.

Vi a tatuagem e ouvi os boatos. Diz-me quem realmente  é ela. Fala-me da criança.

Que lhe interessa isso?

Só estou a tentar ajudar…

Quer trazê-los cá e chamar-lhes tarados, é isso o que você quer fazer.

Então, admite que existam…

Talvez sim. Talvez não. cley Lee mostrou uma fiada de dentes cobertos de chocolate. Não digo nada.

tu é estúpido e teimoso, Cley Lee. Vão fritar-te,  a tua mulher nunca receberá quaisquer benefícios e o teu filho será criado por um cão que o reclamará como seu. Provavelmente, tornar-se-á um fracassado como tu.

Ora, está tudo tratado, Daniel. Está, está. A verdade é que cuidei mais do futuro do que você.

Chamam a isso ironia, não é? Ironia. Que bela palavra, raios! Que bela palavra!

Cley Lee concentrou-se novamente no bolo e calou-se.

Por fim, daniel foi-se embora, irritado. Cley Lee atirou os restos de comida, incluindo a maior parte do bolo, para o chão de cimento. Em princípio, devia partilhar a sobremesa com os seus companheiros do corredor da morte, era esse o protocolo. Cley Lee esmagou o bolo no chão de cimento com o calcanhar do pé direito.

Deixem-nos partilhar isto! Ponham os sacanas para comer isto!

Abruptamente, um rangido sonoro ecoou pelo corredor. O ruído aumentou e subiu num crescendo assustador e irado. Parou, baixou, depois soou mais alto, passando de ganido a rosnado.

O carrasco estava a aquecer a cadeira elétrica, a ensaiar o equipamento a mil e oitocentos volts, depois a quinhentos, a mil e trezentos e a trezentos.

De repente, o momento tornou-se muito real.

Como preferem o Cley Lee? soava ritmadamente no corredor. Assado, grelhado ou frito?

Como preferem o Cley Lee? Assado, grelhado ou frito?

Cley Lee Holmes sentou-se calmamente na ponta do catre. Encolheu os ombros e pensou nas piores coisas em que podia pensar. Pescoços pequeninos e macios, grandes olhos azuis, gritos agudos de meninas.

Não direi uma palavra, bebê. Levo o segredo comigo  para a sepultura………

Anúncios

Obrigado. :D

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento The Secret Daughter – Cap 1 no Ensaios Sobre Loucura.

Meta

%d blogueiros gostam disto: