O Funeral do meu Pai [chapter seven]

15/11/2011 § 1 comentário

Ela tentou esconder com palavras monossilábicas, na conversa, o que não era pra eu ouvir. Bem, ela tentou, não queria causar uma confusão mental antes da hora, a viagem ainda ia durar pelo menos 1hora até chegar à capital.

A possibilidade de que toda a quebra de rotina do dia 7 de junho de 2007 era por conta do inesperado ficou evidente. Enquanto dirigia meu olhar para a paisagem por trás do vidro fumê do corsa 2007, tentava disfarçar com distração todo aquele teatro feito pela tia Janice pra eu não suspeitar mais do que suspeitava.

A conversa no telefone tinha acabado e a tia Janice conseguiu disfarçar socialmente com quem estava falando. Meu preceptor entrou no carro e partimos do internato.

Lembro de ter passado pela portaria e olhar pra trás, como estava lindo aquele dia. O Sol despontava entre duas nuvens comulos nimbos. A grama parecia estar muito mais verde que o comum.  A mata ao fundo me trazia a impressão de estar bem protegido. Acaba de sair da minha zona de conforto.  A cancela da portaria abaixou-se e eu já estava a 5 metros mais longe de casa e mais perto do fim.

Fiquei preocupado com que tipo de conversa teríamos no carro, afinal 1 hora de viagem seria o suficiente pra falar de pelos menos três capítulos da novela das oito.  Decidi não puxar assunto, pra não criar o clima de “precisamos continuar conversando com ele, afinal, fomos nós quem o chamamos”. Entenda como quiser essa minha decisão, mas vi que não estava capacitado pra conduzir uma conversa. Meus pensamentos não paravam no chão.

Passamos pelo Pirulito, o lugar que já foi ponto de referência para encontros dos alunos que voltam ao internato pra visitar. Se chamava Pirulito por ser uma placa de identificação onde se assemelha a um pirulito. Na verdade nunca vi muito sentido, pois o “pirulito” não era redendo, mais parecia uma engrenagem em forma de anúncio publicitário. Mas falar mal do pirulito é quase um pecado, ele é um monumento tombado, na cabeça dos veteranos do internato.

Uma das coisas que provavelmente poderia acontecer no carro era a Tia Janice começar a perguntar sobre como eu estava indo na escola e eu comecei a me preparar piscologicamente pra isso. Era evidente que eu não era um dos melhores alunos, pelo ponto de vista socialmente aceito num internato. Não tirava boas notas e tava quase sempre olhando pela Janela enquanto minha professora de matemática fazia comentários saudáveis sobre como era péssimo o modo como tratavam os professores. Ela reclamava demais. Porém quando queria dar aulas ela era excelente, para os alunos bundudos e cabeçudos que sentavam na frente.

E então quando eu menos espero a pergunta cai no ar, “e então cley, como anda a escola?”

A pergunta veio num tom macio e cheio de “quero saber tudo” até conmpreendo o motivo, uma hora de viagem sem abrir a boca é mais que apático, é tedioso.

“Estamos nos organizando para a feira cultural, então tem algumas coisas que ficam de lado, cê sabe né tia?”

Ela deu um risinho sem compromisso e lançou outra pergunta. “Andei sabendo que você aprontou esses tempos, o professor de física falou sobre você e alguma coisa de suástica no seu caderno.

Comecei a pensar no que ia falar quando ela disse “andei sabendo”, E vi ali que os próximos 57 minutos não seriam eu tentando encontrar assunto, pois o assunto já tinha me encontrado.

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O Funeral do meu Pai [Chapter six] –

20/10/2011 § Deixe um comentário

-Sua Irmã ligou e pediu pra que te levasse- mos pra Manaus, seu pai não está muito bem. Disse a tia Janice

A notícia veio como uma brisa suave que contorna o rosto. Senti como se algo estivesse se desconectando da sua raiz por uma razão desconhecida. Meus pensamentos voltaram ao fato de considerar a morte algo que estava bem perto daquela pseudo- razão do chamado da tia Janice. Ela olhou pra mim como se esperasse uma reação de perguntas, talvez ela pensasse que eu desejasse saber mais sobre o porquê ir pra Manaus.

– Então vou fazer minha mala. Disse eu

E saí da sala encantada do país do rosa, ficaram pra trás o Quadro a decoração em estilo vintage e o cheiro de erva-doce. O Sol então tocou minha pele e no caminho até o meu quarto algumas coisas passaram pela minha cabeça, mas nenhuma delas mais importante do que “Com que roupa eu vou”.

Era interessante pensar que a tia Janice estava arrumada como pra ir a Igreja ou coisa do tipo, que requer mais formalidade. Eu, no entanto, nunca tive jeito pra ir à igreja. Quando era pequeno, minha mãe insistia em me fazer um pequeno advogado. Com mini-ternos, mini-gravatas, suspensório e coletes. Todos eles bem passados e o sapatos brilhantes.

Não me sentia a vontade, claro, mas fazia assim, aliás, quando se tem 12 anos não se decide muito sobre si mesmo.  Cheguei ao quarto e olhei para o guarda – roupa. Peguei as roupas sem olhar e joguei na mala. E decidi ir com a roupa da escola. Fácil, né? Eu sentei então na cama e coloquei as mãos na cabeça, meus olhos ficaram iguais aos dos asiáticos. A dor de cabeça começou e com ela veio a vontade de não sair dali. Eu estava seguro ali, não queria saber o que estava lá fora, se era a morte ou se era a vida.

Nesse momento bate na porta o Elvio, elvinho como chamavam. O Elvinho era do quarto oito, era irmão mais novo do Élio e no quarto dele todos eram meus amigos. O Elvinho era o misto de cômico e nerd . Uma vez, quando cantava no coral, fui a Manaus e na volta paramos no Mac`donalds, eu comprei o n 2 pru Elvinho, pois ele era do coral também, mas  perdeu a saída por conta de saia. Hehe.

Era noite e estávamos na Luminária, que era um poste imenso que ficava na passarela e que iluminava quem caminhava na passarela à noite, porém ela era acessa apenas as sextas-feiras, pois segundo o tesoureiro a lâmpada consumia muita energia, então na maioria das noites ela estava desligada. Eu e o Elvinho sentamos nos pés da luminária e eu entreguei o hambúrguer pra ele, eu lembro das seguintes palavras: Nossa cara, você lembrou de mim, sabia que você é um dos caras mais humildes que eu conheço? Eu disse que eu não era humilde, então ele disse:  por isso mesmo você é.

Naquela noite ele repartiu o número 2 comigo, eu me senti feliz. Ele então tocou na porta com mais força, pois parecia que eu estava no mundo da lua. Eu olhei, dei um sorriso de lado, e ele percebeu que alguma coisa estava fora do eixo. Ele foi e sentou do meu lado e não perguntou o que tinha acontecido, só ficou do meu lado. Eu então tomei o diálogo.

– Elvinho, vou pra Manaus agora, quer alguma coisa? Um número 2, talvez?

Ele sorriu e não disse nada. Eu comecei a retomar meu diálogo solitário. Comecei a reclamar de como é difícil escolher uma roupa e falei sobre a mala que parecia muito pequena pra tanta roupa, aliás, não sabia nem quantos dias eu iria ficar em casa.

Meu Preceptor, que era esposo da tia Janice, Clayton, falou então que estavam prontos pra ir. O Elvinho pegou a mala e entregou na minha mão.

Eu então comecei a andar até o carro. Não sabia o que pensar, não sabia o que vestir, não sabia pra onde ir. Perdia ali meu porto seguro e iria ter uma surpresa que provavelmente saberia o desfecho.

A tia Janice já estava no carro quando entrei. O Celular então tocou pela segunda vez naquela tarde. Eu então ouvi o que não precisava, não naquele momento…

Nova Web-história – TEASER

24/01/2011 § Deixe um comentário

O Céu Custa Caro, esse é o título do novo livro que vou postar aqui no Blog do Loucura. Já estou lá pela página 28. O Livro vai ser um descrição real e cômica do que se tornou as Igrejas que se dizem Evangélicas. Com uma pitada de sarcasmo e realismo irei falar sobre tudo que se refere ao rídiculo da religão. OS POSTS IRÃO COMEÇAR NA SEGUNDA QUE VEM.

ATÉ LÁ

(acredito que nao vao me censurar. tomara ne hehe. Coitado do Bispo)

O Grande Abismo [ Cap 14.FINAL]

24/12/2010 § Deixe um comentário

De repente tudo mudou. Vi uma grande assembléia de formas gigantescas e imóveis, no mais profundo silêncio, de pé para sempre ao redor de uma pequena mesa de prata, e olhando para ela. Sobre a mesa se achavam figurinhas como as de um jogo de xadrez que iam para cá e para lá, fazendo isto e aquilo. E eu soube que cada figura era o ‘idoluin’ ou representante-fantoche de algumas das grandes presenças que ali estavam. E os atos e movimentos de cada figura eram um retrato móvel, uma mímica ou pantomima, que delineava a natureza íntima de seu mestre gigantesco. Essas figuras são os homens e mulheres como parecem a si mesmos e uns aos outros neste mundo. A mesa de prata é o Tempo. Os que estão de pé observando são as almas imortais desses indivíduos. Então a vertigem e o terror tomaram conta de mim, e agarrando-me ao Professor, exclamei: “E essa então a verdade? Então tudo o que vi neste país é falso? Essas conversas entre os Espíritos e os Fantasmas — não passavam de imitação das escolhas que tinham sido realmente feitas há muito tempo?”

“Não poderia você dizer perfeitamente, antecipações de uma escolha a ser feita no final de todas as coisas? Mas é melhor não dizer nada. Você viu as escolhas um tanto mais claramente do que poderia vê-Ias na terra: a lente estava mais clara. Mas mesmo assim foi visto através da lente. Não peça a uma visão num sonho mais do que ela pode dar-lhe.”

“Um sonho? Então, então, não estou realmente aqui, senhor?”

“Não, Filho”, disse ele com bondade, tomando minha mão na sua.

“A coisa não é tão boa assim. A taça amarga da morte ainda está para ser bebida. Você está apenas sonhando. E se vier a contar o que viu, deixe bem claro que não passou de um sonho. Não esqueça de esclarecer isso. Não dê a qualquer tolo o pretexto de pensar que você está alegando ter conhecimento daquilo que mortal algum conhece. Não quero mentirosos entre os meus filhos.”

“Deus não permita, senhor”, respondi, procurando parecer muito sábio.

“Ele proibiu isso, estou lhe dizendo.” Ao falar assim, pareceu mais escocês do que nunca. Eu olhava fixamente para o seu rosto. A visão das figurinhas de xadrez se desvanecera e novamente nos rodeava a mata silenciosa na luz fria do amanhecer. Enquanto ainda contemplava seu rosto, vi nele algo que me fez sentir um arrepio por todo o corpo. Eu estava de pé, com as costas voltadas para o Oriente e as montanhas; e ele, de frente para mim, olhava para elas. Sua face resplandeceu com uma nova luz. Uma samambaia, alguns passos atrás dele, tomou a cor de ouro. O lado oriental de cada um dos troncos das árvores começou a brilhar. As sombras se aprofundaram. Durante todo o tempo se ouvira o ruído dos pássaros, trinados, chilreios e o mais; mas agora, de repente, surgia um coro em cada ramo. Os galos cantavam, a música das trombetas e dos cães de caça se alteava no ar, e por sobre tudo isso dez mil línguas de homens e de anjos da mata, e a própria floresta, clamavam: “Está chegando! Está chegando!” “Despertem! Está chegando, está chegando.”

Lancei um breve olhar sobre o meu ombro — não durou o bastante para ver (ou será que vi?) a beirada do sol nascente que aniquila o Tempo com setas de ouro e faz fugir todas as formas espectrais.

Com um grito, escondi o rosto nas dobras do manto de meu Professor. “A manhã! A manhã!” exclamei. “Fui apanhado pelo amanhecer e sou um fantasma.” Mas era tarde demais. A luz, como blocos sólidos, intolerável por causa de sua aresta e peso, caiu atroadora sobre a minha cabeça. No instante seguinte, as dobras das vestes de meu Professor não passavam das dobras da toalha manchada de tinta sobre a minha mesa de estudo, que me envolvera quando caí da cadeira. Os blocos de luz eram simplesmente os livros que vieram com ela ao puxá-la, golpeando-me a testa. Acordei num quarto frio, encolhido no chão junto a uma lareira negra e vazia. O relógio dava três horas e soava ao longe o uivo de uma sirene, abafando tudo.

FIM aqui, mas o começo em um universo qualquer.

O Grande Abismo [Cap 13]

24/12/2010 § Deixe um comentário

Acho que nunca vi algo mais terrível do que a luta daquele Fantasma Pigmeu contra a alegria. Pois ele tinha sido quase vencido. Em algum lugar, num passado remoto, deveria ter havido vislumbres de humor e raciocínio nele. Por um instante, enquanto ela o olhava com amor e alegria, ele viu o completo absurdo do Trágico. Por um momento apenas não entendeu mal o riso dela: ele também deveria ter sabido um dia que as pessoas que se amam igualmente se acham absurdas. Mas a luz que o alcançou chegou ali contra a vontade dele. Não tinha sido assim que planejara o encontro; não podia aceitá-lo. Agarrou-se mais uma vez à sua corda salva-vidas e no mesmo instante o Trágico falou.

“Você ousa rir!” atacou-a. “Em meu rosto? E é esta a minha recompensa. Muito bem. E bom que não se preocupe com o meu destino. De outro modo poderia arrepender-se mais tarde por ter-me enviado de volta ao Inferno. O quê? Pensa que ficaria agora? Muito obrigado. Acho que sei perfeitamente quando não sou querido.

‘“Desnecessário’ é a expressão exata, se não me engano.” A partir dessa hora o Pigmeu não falou mais, embora a Senhora continuasse se dirigindo a ele.

“Querido, ninguém está mandando você embora. Aqui tudo é alegria. Tudo convida você a ficar.” Mas o Pigmeu estava se tomando cada vez menor, mesmo enquanto ela falava.

“Sim”, falou o Trágico. “Em termos que poderiam ser oferecidos a um cão. Acontece que eu ainda tenho alguma auto-estima, e vejo que minha ida não fará qualquer diferença para você. Você não se importa que eu volte para o frio e a tristeza, para aquelas ruas solitárias…

“Não deixe Francisco”, disse a Senhora. “Não deixe que ele fale desse modo.” Mas o Pigmeu estava agora tão pequeno que ela tinha se ajoelhado para falar-lhe. O Trágico apanhou as palavras dela avidamente, como um cão apanha um osso.

“Ah! Você não pode suportar!” bradou triunfante na sua miséria.

“Sempre foi assim. Você precisa ser protegida. As realidades cruas precisam ser mantidas fora da sua vista. Você que pode ser feliz sem mim, esquecendo-se de que existo! Não quer sequer ouvir falar dos meus sofrimentos. Você diz: não. Não te conte, não a faça infeliz, não interfira no seu pequeno céu egocêntrico e protegido. E é esta a recompensa…

Ela abaixou-se ainda mais para falar com o Pigmeu que não passava então de uma figura pequena como um gatinho, pendurado na ponta da corrente com os pés acima do solo.

“Não foi por isso que eu disse Não”, respondeu ela. “Eu queria dizer, deixe de ser teatral. Não adianta. Ele está matando você. Deixe cair a corrente. Agora mesmo.”

“Representando”, berrou o Trágico. “O que quer dizer com isso?”O Pigmeu estava agora tão pequeno que eu não o distinguia da corrente a que se apegava. E então, pela primeira vez, não pude ter certeza se a Senhora se dirigia a ele ou ao Trágico.

“Depressa”, disse ela. “Ainda há tempo. Pare. Pare imediatamente.”

“Parar o quê?”

“De usar a piedade, a compaixão das outras pessoas, da maneira errada. Todos fizemos isso, pelo menos um pouco, na terra, você sabe. A compaixão deveria ser um estímulo para levar a alegria a ajudar a miséria. Os que escolhem a infelicidade podem matar a alegria, através da compaixão. Veja bem, agora eu sei. Até mesmo quando criança você fazia isso. Em lugar de pedir desculpas, você ia para o quarto e ficava lá amuado… porque sabia que mais cedo ou mais tarde uma de suas irmãs diria: Não posso pensar nele sentado sozinho lá dentro, chorando. Você se utilizava da piedade delas para chantageá-Ias, e elas cediam no fim. E depois, quando nos casamos… oh, não importa, se você apenas parar.”

“E isso”, falou o Trágico, “isso foi tudo o que compreendeu a meu respeito, depois de todos esses anos.” Não sei o que tinha aconte-cido com o Fantasma Pigmeu nessa altura. Talvez estivesse subindo na corrente como um inseto; talvez tivesse sido absorvido de alguma forma na corrente.

“Não, Francisco, não aqui,” declarou ela. “Ouça à razão. Você pensa que a alegria foi criada para viver sempre debaixo dessa ameaça? Sempre indefesa contra aqueles que preferem ser infelizes a  verem contrariada a sua vontade? Pois foi uma miséria real. Sei disso agora. Você se tomou verdadeiramente desgraçado. E pode fazer isso ainda. Mas não pode mais transmitir a sua desgraça. Tudo se torna cada vez mais ele mesmo. Esta é uma alegria que não pode ser abalada. Nossa luz pode engolir as suas trevas. Não, não, não. Venha para nós. Não iremos até você. Será que você realmente pensou que o amor e a alegria poderiam estar sempre à mercê de caras feias e suspiros? Não sabia que eram mais fortes do que seus oponentes?”

“Amor? Como você ousa fazer uso dessa palavra sagrada?” Era o Trágico falando. Na mesma hora ele recolheu a corrente que por algum tempo estivera balançando inútil a seu lado, e de alguma forma dispôs da mesma. Não estou certo, mas penso que a engoliu.

Então, pela primeira vez, ficou claro que a Senhora via apenas a ele e a ele se dirigia.

“Onde está Francisco?” perguntou. “E quem é você? Nunca o conheci. Talvez seja melhor deixar-me. Ou fique, se quiser. Se isso ajudasse, e fosse possível, eu desceria ao inferno com você: mas, você não pode trazer o inferno até mim.”

“Você não me ama”, replicou o Trágico numa voz fininha como o guincho de um morcego. E mal se podia mais distingui-lo.

“Não posso amar uma mentira”, disse a Senhora. “Não posso amar aquilo que não é. Estou no Amor, e não sairei dele.” Não houve resposta. O Trágico tinha desaparecido. A Senhora es-tava só naquela mata, e um pássaro marrom passou pulando a seu lado, curvando com seus pés ágeis a relva que eu não podia curvar.

A senhora levantou-se então e começou a afastar-se. Os outros Espíritos Luminosos se adiantaram para recebê-la, cantando enquanto o faziam:

“A Trindade Alegre é o seu lar: nada pode dissipar sua alegria.Ela é o pássaro que foge de cada rede; o veado selvagem que pula por sobre as armadilhas.

Como a mãe pássaro para os seus filhotes, ou a armadura para o cavaleiro: assim é o Senhor para ela, em sua lucidez imutável. Espectros não lhe causam temor nas trevas, disparos não a assustam durante o dia. As mentiras apresentadas como verdades podem atacá-la, mas tudo em vão: ela vê através da falsidade como se fosse de vidro. O germe invisível não pode prejudicá-la: nem mesmo o calor do sol incandescente. Milhares deixam de resolver o problema, dezenas de milhares escolhem o desvio errado: mas ela segue adiante com segurança. Ele destaca deuses imortais para atendê-la: em todo caminho que tiver de trilhar.Tomam da sua mão nas escarpas: ela não ferirá seus pés no escuro E lhe permitido andar entre leões e serpentes: entre dinossauros e leõezinhos.Ele “enche a sua taça com a imensidade da vida: levando-a ver a descida do mundo.”

“Mesmo assim… mesmo assim”, eu disse ao meu Professor, quando todas as formas e cânticos se embrenharam pela floresta, “mesmo agora não estou muito certo. E realmente tolerável que ela não seja atingida pela miséria dele, mesmo uma infelicidade auto-infligida?”

“Você queria que ele mantivesse ainda o poder de atormentá-la?

Ele fez isso durante muito e muito tempo na sua vida terrena.”

“Bem, não. Suponho que não quereria isso.”

“O que então?”

“Não sei bem, senhor. O que as pessoas dizem na terra é que a perda final de uma alma faz diminuir a alegria de todos os salvos.”

“Você está vendo que não é assim.”

“Sinto de alguma forma que deveria ser.”

“Isso parece muito piedoso, mas veja o que se insinua por detrás.”

“O quê?”

“A exigência dos que não são amados e dos prisioneiros de si mesmos, no sentido de que lhes seja permitido chantagear o universo: de que até que consintam em ser felizes (em seus próprios termos), ninguém mais possa provar da alegria. Que o deles seja o poder final; que o Inferno possa vetar o Céu.”

“Não sei o que quero, senhor.”

“Filho, precisa ser de um jeito ou de outro. Ou virá o dia em que a alegria prevalecerá e todos os fazedores de infelicidade não mais poderão atingi-la; ou, de outro modo, para sempre e sempre os fazedores da infelicidade poderão destruir nos outros a felicidade que rejeitam para si mesmos. Sei que parece grandioso dizer que você não aceitará uma salvação que deixe uma única criatura nas trevas lá fora. Mas, tenha cautela com esse raciocínio ou permitirá que um invejoso seja o tirano do universo.”

“Mas, ousaria alguém afirmar — e isso é horrível — que a Piedade deve morrer?”

“É preciso diferençar. A ação da Piedade viverá para sempre: mas não a sua paixão. A paixão da piedade, aquilo que simplesmente suportamos, a ânsia que leva os homens a concederem aquilo que não deve ser concedido e a lisonjearem quando deveriam falar a verdade, a piedade que levou muitas mulheres a perderem a virgindade e muitos estadistas a porem de lado a sua honestidade essa morrerá. Ela foi usada por homens perversos como uma arma contra os bons: a sua arma será destruída.

“E o outro tipo — a ação?”

“E uma arma ao inverso. Salta mais rápido do que a luz, do lugar mais alto para o mais baixo, a fim de trazer cura e alegria, qualquer seja o custo para si mesma. Ela transforma as trevas em luz, e o mal em bem. Mas não irá, diante das lágrimas astuciosas do Inferno, impor sobre os bons a tirania do mal. Toda doença que se submeter à cura, será curada, mas não chamaremos o azul de amarelo para agradar aqueles que insistem em ter icterícia, nem transformaremos o jardim do mundo num monte de esterco por causa de alguns que não suportam o perfume das rosas.”

“O senhor diz que ela irá aos mais ínfimos. Mas ela não foi com ele para o inferno. Nem sequer o viu partir no ônibus.”

“Bem, todos viemos naquele ônibus. O grande abismo, além da beirada do penhasco. Ali adiante. Não se pode vê-lo daqui, mas deve saber o lugar a que me refiro.”

Meu professor deu um sorriso estranho. “Olhe”, disse ele, e com essas palavras pôs-se de gatinhas, com as mãos e os joelhos no chão. Fiz o mesmo (e como me machucou os joelhos) e vi que tinha arrancado uma folha de grama. Usando a sua haste afilada como um ponteiro, ele me fez ver, depois de olhar com todo cuidado, uma rachadura no solo, tão pequena que eu não teria podido identificá-la sem a ajuda dele.

“Não estou certo”, disse ele, “que seja esta a rachadura através da qual você veio. Mas de outra não maior do que esta você com certeza surgiu.”

“Mas — mas”, gaguejei, com um sentimento de perplexidade próximo ao terror. “Vi um abismo infinito. E penhascos erguendo-se cada vez mais altos. E depois este país no alto dos penhascos.”

“Está certo. Mas a viagem não foi uma simples locomoção. Aquele ônibus… e todos vocês dentro dele, estavam aumentando de tamanho.”

“Quer dizer então que o Inferno — toda aquela cidade vazia, infinita — está contida em alguma pequena rachadura como esta?”

“Sim. O Inferno inteiro é menor do que um pedregulho do seu mundo terrestre: mas é ainda menor do que um átomo deste mundo, o Mundo Real. Olhe para aquela borboleta. Se ela engolisse o inferno inteiro, ele não seria bastante grande para prejudicá-la de modo algum nem teria qualquer sabor.”

“Parece bem grande quando estamos dentro dele, senhor.”

“Todavia, toda solidão, ira, ódio, inveja e desejos nele contidos, se combinados numa só experiência e colocados na balança em oposição ao menor momento de gozo sentido pelo menor de todos no céu, não teria peso algum que pudesse ser registrado. O mal não pode ter êxito mesmo em ser mau, com tanta realidade como o bem é bom. Se todas as misérias do inferno viessem a colocar-se juntas diante daquele pequenino pássaro amarelo no ramo ali adiante, seriam engolidos sem deixar vestígios, como uma gota de tinta derramada no Grande Oceano do qual o seu Atlântico celestial não passa de uma simples molécula.”

“Entendo”, disse eu finalmente, “Ela não caberia no inferno.”Ele assentiu. “Não há espaço para ela. O inferno não poderia abrir até esse ponto a sua boca.”

“E não poderia ela diminuir? — como Alice?”

“Não o bastante. Pois uma alma condenada é praticamente nada: ela é encolhida, fechada em si mesma. O bem bate sobre os condenados incessantemente como as ondas de som batem no ouvido dos surdos, mas eles não podem recebê-las. Seus dedos estão dobrados, seus dentes cerrados, seus olhos fechados. Em primeiro lugar eles não querem, e no fim não podem abrir as mãos para receber as dádivas, a boca para serem alimentados, ou os olhos para ver.”

“Então ninguém poderá jamais chegar até eles?”

“Somente o Maior de Todos pode tomar-se suficientemente pequeno para entrar no inferno. Pois quanto mais elevada é uma coisa, tanto mais baixo pode descer — o homem pode ter simpatia por um cavalo, mas este não terá simpatia por um rato. Somente Alguém desceu ao inferno.”

“E Ele fará isso de novo?”

“Não faz muito tempo que fez isso. O tempo não funciona desse jeito uma vez que você deixa a Terra. Todos os momentos que fo-ram ou serão estavam, ou estão, presentes no momento de sua descida. Não há espírito em prisão ao qual não tivesse pregado.”

“E alguns dão-lhe atenção?”

“Sim.”

“Em seus livros, senhor”, disse eu, “o senhor era universalista. Falava como se todos os homens fossem ser salvos. E São Paulo também fez isso.”

“Você nada pode saber do fim de todas as coisas, ou nada que possa ser expresso nesses termos. Pode ser, como o Senhor disse à Senhora Juliana, que tudo acabará bem, e todas as coisas acabarão bem. Mas não é bom falar dessas questões.”

“Por serem demasiado terríveis, senhor?”

“Não. Porque todas as respostas enganam. Se colocar a questão do ponto de vista do Tempo e estiver perguntando sobre possibilidades, a resposta é uma certeza. A escolha dos meios está à sua frente. Todos são viáveis. Qualquer homem pode escolher a morte eterna. Os que fizerem essa opção vão tê-la. Mas se estiver tentando pular para a eternidade, se estiver tentando ver o estado final de todas as coisas, como elas serão, quando não restarem mais possibilidades mas apenas o que é Real, estará então perguntando o que não pode ser respondido aos ouvidos mortais. O tempo é a própria lente através da qual você vê — pequeno e claro, como os homens vêem pelo lado errado de um telescópio — algo que de outra forma seria grande demais para ser visto por você. Essa coisa é a Liberdade: o dom pelo qual você mais se assemelha ao seu Criador e é você mesmo parte da realidade eterna.

Mas você só pode vê-la através da lente do Tempo, num quadro pequeno e nítido, por meio do telescópio invertido. E uma cena de momentos seguindo-se uns aos outros e você em cada momento, fazendo uma escolha que poderia ter sido outra. Nem a sucessão temporal nem o espectro do que você poderia ter escolhido e não fez são, por si mesmos, a Liberdade. Eles são uma lente. O quadro é um símbolo: mais verdadeiro, porém, do que qualquer teorema filosófico (ou, talvez, que qualquer visão mística) que alega resolvê-lo. Pois toda tentativa de vislumbrar a forma da eternidade exceto através da lente do Tempo destrói o seu conhecimento da Liberdade.

Considere a doutrina da Predestinação que mostra (verazmente) que a realidade eterna não está aguardando um futuro em que venha a ser real; mas ao preço de anular a Liberdade que é a verdade mais profunda entre as duas. Não faria o universalismo o mesmo? Não se pode conhecer a realidade eterna mediante uma definição. O próprio tempo, e todos os atos e eventos que preenchem o Tempo, são a definição, e ela deve ser vivida, O Senhor disse que éramos deuses. Por quanto tempo você suportaria olhar (sem a lente do Tempo) para a grandiosidade de sua própria alma e a realidade eterna da sua escolha?”

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