O Grande Abismo [ Cap 14.FINAL]

24/12/2010 § Deixe um comentário

De repente tudo mudou. Vi uma grande assembléia de formas gigantescas e imóveis, no mais profundo silêncio, de pé para sempre ao redor de uma pequena mesa de prata, e olhando para ela. Sobre a mesa se achavam figurinhas como as de um jogo de xadrez que iam para cá e para lá, fazendo isto e aquilo. E eu soube que cada figura era o ‘idoluin’ ou representante-fantoche de algumas das grandes presenças que ali estavam. E os atos e movimentos de cada figura eram um retrato móvel, uma mímica ou pantomima, que delineava a natureza íntima de seu mestre gigantesco. Essas figuras são os homens e mulheres como parecem a si mesmos e uns aos outros neste mundo. A mesa de prata é o Tempo. Os que estão de pé observando são as almas imortais desses indivíduos. Então a vertigem e o terror tomaram conta de mim, e agarrando-me ao Professor, exclamei: “E essa então a verdade? Então tudo o que vi neste país é falso? Essas conversas entre os Espíritos e os Fantasmas — não passavam de imitação das escolhas que tinham sido realmente feitas há muito tempo?”

“Não poderia você dizer perfeitamente, antecipações de uma escolha a ser feita no final de todas as coisas? Mas é melhor não dizer nada. Você viu as escolhas um tanto mais claramente do que poderia vê-Ias na terra: a lente estava mais clara. Mas mesmo assim foi visto através da lente. Não peça a uma visão num sonho mais do que ela pode dar-lhe.”

“Um sonho? Então, então, não estou realmente aqui, senhor?”

“Não, Filho”, disse ele com bondade, tomando minha mão na sua.

“A coisa não é tão boa assim. A taça amarga da morte ainda está para ser bebida. Você está apenas sonhando. E se vier a contar o que viu, deixe bem claro que não passou de um sonho. Não esqueça de esclarecer isso. Não dê a qualquer tolo o pretexto de pensar que você está alegando ter conhecimento daquilo que mortal algum conhece. Não quero mentirosos entre os meus filhos.”

“Deus não permita, senhor”, respondi, procurando parecer muito sábio.

“Ele proibiu isso, estou lhe dizendo.” Ao falar assim, pareceu mais escocês do que nunca. Eu olhava fixamente para o seu rosto. A visão das figurinhas de xadrez se desvanecera e novamente nos rodeava a mata silenciosa na luz fria do amanhecer. Enquanto ainda contemplava seu rosto, vi nele algo que me fez sentir um arrepio por todo o corpo. Eu estava de pé, com as costas voltadas para o Oriente e as montanhas; e ele, de frente para mim, olhava para elas. Sua face resplandeceu com uma nova luz. Uma samambaia, alguns passos atrás dele, tomou a cor de ouro. O lado oriental de cada um dos troncos das árvores começou a brilhar. As sombras se aprofundaram. Durante todo o tempo se ouvira o ruído dos pássaros, trinados, chilreios e o mais; mas agora, de repente, surgia um coro em cada ramo. Os galos cantavam, a música das trombetas e dos cães de caça se alteava no ar, e por sobre tudo isso dez mil línguas de homens e de anjos da mata, e a própria floresta, clamavam: “Está chegando! Está chegando!” “Despertem! Está chegando, está chegando.”

Lancei um breve olhar sobre o meu ombro — não durou o bastante para ver (ou será que vi?) a beirada do sol nascente que aniquila o Tempo com setas de ouro e faz fugir todas as formas espectrais.

Com um grito, escondi o rosto nas dobras do manto de meu Professor. “A manhã! A manhã!” exclamei. “Fui apanhado pelo amanhecer e sou um fantasma.” Mas era tarde demais. A luz, como blocos sólidos, intolerável por causa de sua aresta e peso, caiu atroadora sobre a minha cabeça. No instante seguinte, as dobras das vestes de meu Professor não passavam das dobras da toalha manchada de tinta sobre a minha mesa de estudo, que me envolvera quando caí da cadeira. Os blocos de luz eram simplesmente os livros que vieram com ela ao puxá-la, golpeando-me a testa. Acordei num quarto frio, encolhido no chão junto a uma lareira negra e vazia. O relógio dava três horas e soava ao longe o uivo de uma sirene, abafando tudo.

FIM aqui, mas o começo em um universo qualquer.

Anúncios

O Grande Abismo [Cap 13]

24/12/2010 § Deixe um comentário

Acho que nunca vi algo mais terrível do que a luta daquele Fantasma Pigmeu contra a alegria. Pois ele tinha sido quase vencido. Em algum lugar, num passado remoto, deveria ter havido vislumbres de humor e raciocínio nele. Por um instante, enquanto ela o olhava com amor e alegria, ele viu o completo absurdo do Trágico. Por um momento apenas não entendeu mal o riso dela: ele também deveria ter sabido um dia que as pessoas que se amam igualmente se acham absurdas. Mas a luz que o alcançou chegou ali contra a vontade dele. Não tinha sido assim que planejara o encontro; não podia aceitá-lo. Agarrou-se mais uma vez à sua corda salva-vidas e no mesmo instante o Trágico falou.

“Você ousa rir!” atacou-a. “Em meu rosto? E é esta a minha recompensa. Muito bem. E bom que não se preocupe com o meu destino. De outro modo poderia arrepender-se mais tarde por ter-me enviado de volta ao Inferno. O quê? Pensa que ficaria agora? Muito obrigado. Acho que sei perfeitamente quando não sou querido.

‘“Desnecessário’ é a expressão exata, se não me engano.” A partir dessa hora o Pigmeu não falou mais, embora a Senhora continuasse se dirigindo a ele.

“Querido, ninguém está mandando você embora. Aqui tudo é alegria. Tudo convida você a ficar.” Mas o Pigmeu estava se tomando cada vez menor, mesmo enquanto ela falava.

“Sim”, falou o Trágico. “Em termos que poderiam ser oferecidos a um cão. Acontece que eu ainda tenho alguma auto-estima, e vejo que minha ida não fará qualquer diferença para você. Você não se importa que eu volte para o frio e a tristeza, para aquelas ruas solitárias…

“Não deixe Francisco”, disse a Senhora. “Não deixe que ele fale desse modo.” Mas o Pigmeu estava agora tão pequeno que ela tinha se ajoelhado para falar-lhe. O Trágico apanhou as palavras dela avidamente, como um cão apanha um osso.

“Ah! Você não pode suportar!” bradou triunfante na sua miséria.

“Sempre foi assim. Você precisa ser protegida. As realidades cruas precisam ser mantidas fora da sua vista. Você que pode ser feliz sem mim, esquecendo-se de que existo! Não quer sequer ouvir falar dos meus sofrimentos. Você diz: não. Não te conte, não a faça infeliz, não interfira no seu pequeno céu egocêntrico e protegido. E é esta a recompensa…

Ela abaixou-se ainda mais para falar com o Pigmeu que não passava então de uma figura pequena como um gatinho, pendurado na ponta da corrente com os pés acima do solo.

“Não foi por isso que eu disse Não”, respondeu ela. “Eu queria dizer, deixe de ser teatral. Não adianta. Ele está matando você. Deixe cair a corrente. Agora mesmo.”

“Representando”, berrou o Trágico. “O que quer dizer com isso?”O Pigmeu estava agora tão pequeno que eu não o distinguia da corrente a que se apegava. E então, pela primeira vez, não pude ter certeza se a Senhora se dirigia a ele ou ao Trágico.

“Depressa”, disse ela. “Ainda há tempo. Pare. Pare imediatamente.”

“Parar o quê?”

“De usar a piedade, a compaixão das outras pessoas, da maneira errada. Todos fizemos isso, pelo menos um pouco, na terra, você sabe. A compaixão deveria ser um estímulo para levar a alegria a ajudar a miséria. Os que escolhem a infelicidade podem matar a alegria, através da compaixão. Veja bem, agora eu sei. Até mesmo quando criança você fazia isso. Em lugar de pedir desculpas, você ia para o quarto e ficava lá amuado… porque sabia que mais cedo ou mais tarde uma de suas irmãs diria: Não posso pensar nele sentado sozinho lá dentro, chorando. Você se utilizava da piedade delas para chantageá-Ias, e elas cediam no fim. E depois, quando nos casamos… oh, não importa, se você apenas parar.”

“E isso”, falou o Trágico, “isso foi tudo o que compreendeu a meu respeito, depois de todos esses anos.” Não sei o que tinha aconte-cido com o Fantasma Pigmeu nessa altura. Talvez estivesse subindo na corrente como um inseto; talvez tivesse sido absorvido de alguma forma na corrente.

“Não, Francisco, não aqui,” declarou ela. “Ouça à razão. Você pensa que a alegria foi criada para viver sempre debaixo dessa ameaça? Sempre indefesa contra aqueles que preferem ser infelizes a  verem contrariada a sua vontade? Pois foi uma miséria real. Sei disso agora. Você se tomou verdadeiramente desgraçado. E pode fazer isso ainda. Mas não pode mais transmitir a sua desgraça. Tudo se torna cada vez mais ele mesmo. Esta é uma alegria que não pode ser abalada. Nossa luz pode engolir as suas trevas. Não, não, não. Venha para nós. Não iremos até você. Será que você realmente pensou que o amor e a alegria poderiam estar sempre à mercê de caras feias e suspiros? Não sabia que eram mais fortes do que seus oponentes?”

“Amor? Como você ousa fazer uso dessa palavra sagrada?” Era o Trágico falando. Na mesma hora ele recolheu a corrente que por algum tempo estivera balançando inútil a seu lado, e de alguma forma dispôs da mesma. Não estou certo, mas penso que a engoliu.

Então, pela primeira vez, ficou claro que a Senhora via apenas a ele e a ele se dirigia.

“Onde está Francisco?” perguntou. “E quem é você? Nunca o conheci. Talvez seja melhor deixar-me. Ou fique, se quiser. Se isso ajudasse, e fosse possível, eu desceria ao inferno com você: mas, você não pode trazer o inferno até mim.”

“Você não me ama”, replicou o Trágico numa voz fininha como o guincho de um morcego. E mal se podia mais distingui-lo.

“Não posso amar uma mentira”, disse a Senhora. “Não posso amar aquilo que não é. Estou no Amor, e não sairei dele.” Não houve resposta. O Trágico tinha desaparecido. A Senhora es-tava só naquela mata, e um pássaro marrom passou pulando a seu lado, curvando com seus pés ágeis a relva que eu não podia curvar.

A senhora levantou-se então e começou a afastar-se. Os outros Espíritos Luminosos se adiantaram para recebê-la, cantando enquanto o faziam:

“A Trindade Alegre é o seu lar: nada pode dissipar sua alegria.Ela é o pássaro que foge de cada rede; o veado selvagem que pula por sobre as armadilhas.

Como a mãe pássaro para os seus filhotes, ou a armadura para o cavaleiro: assim é o Senhor para ela, em sua lucidez imutável. Espectros não lhe causam temor nas trevas, disparos não a assustam durante o dia. As mentiras apresentadas como verdades podem atacá-la, mas tudo em vão: ela vê através da falsidade como se fosse de vidro. O germe invisível não pode prejudicá-la: nem mesmo o calor do sol incandescente. Milhares deixam de resolver o problema, dezenas de milhares escolhem o desvio errado: mas ela segue adiante com segurança. Ele destaca deuses imortais para atendê-la: em todo caminho que tiver de trilhar.Tomam da sua mão nas escarpas: ela não ferirá seus pés no escuro E lhe permitido andar entre leões e serpentes: entre dinossauros e leõezinhos.Ele “enche a sua taça com a imensidade da vida: levando-a ver a descida do mundo.”

“Mesmo assim… mesmo assim”, eu disse ao meu Professor, quando todas as formas e cânticos se embrenharam pela floresta, “mesmo agora não estou muito certo. E realmente tolerável que ela não seja atingida pela miséria dele, mesmo uma infelicidade auto-infligida?”

“Você queria que ele mantivesse ainda o poder de atormentá-la?

Ele fez isso durante muito e muito tempo na sua vida terrena.”

“Bem, não. Suponho que não quereria isso.”

“O que então?”

“Não sei bem, senhor. O que as pessoas dizem na terra é que a perda final de uma alma faz diminuir a alegria de todos os salvos.”

“Você está vendo que não é assim.”

“Sinto de alguma forma que deveria ser.”

“Isso parece muito piedoso, mas veja o que se insinua por detrás.”

“O quê?”

“A exigência dos que não são amados e dos prisioneiros de si mesmos, no sentido de que lhes seja permitido chantagear o universo: de que até que consintam em ser felizes (em seus próprios termos), ninguém mais possa provar da alegria. Que o deles seja o poder final; que o Inferno possa vetar o Céu.”

“Não sei o que quero, senhor.”

“Filho, precisa ser de um jeito ou de outro. Ou virá o dia em que a alegria prevalecerá e todos os fazedores de infelicidade não mais poderão atingi-la; ou, de outro modo, para sempre e sempre os fazedores da infelicidade poderão destruir nos outros a felicidade que rejeitam para si mesmos. Sei que parece grandioso dizer que você não aceitará uma salvação que deixe uma única criatura nas trevas lá fora. Mas, tenha cautela com esse raciocínio ou permitirá que um invejoso seja o tirano do universo.”

“Mas, ousaria alguém afirmar — e isso é horrível — que a Piedade deve morrer?”

“É preciso diferençar. A ação da Piedade viverá para sempre: mas não a sua paixão. A paixão da piedade, aquilo que simplesmente suportamos, a ânsia que leva os homens a concederem aquilo que não deve ser concedido e a lisonjearem quando deveriam falar a verdade, a piedade que levou muitas mulheres a perderem a virgindade e muitos estadistas a porem de lado a sua honestidade essa morrerá. Ela foi usada por homens perversos como uma arma contra os bons: a sua arma será destruída.

“E o outro tipo — a ação?”

“E uma arma ao inverso. Salta mais rápido do que a luz, do lugar mais alto para o mais baixo, a fim de trazer cura e alegria, qualquer seja o custo para si mesma. Ela transforma as trevas em luz, e o mal em bem. Mas não irá, diante das lágrimas astuciosas do Inferno, impor sobre os bons a tirania do mal. Toda doença que se submeter à cura, será curada, mas não chamaremos o azul de amarelo para agradar aqueles que insistem em ter icterícia, nem transformaremos o jardim do mundo num monte de esterco por causa de alguns que não suportam o perfume das rosas.”

“O senhor diz que ela irá aos mais ínfimos. Mas ela não foi com ele para o inferno. Nem sequer o viu partir no ônibus.”

“Bem, todos viemos naquele ônibus. O grande abismo, além da beirada do penhasco. Ali adiante. Não se pode vê-lo daqui, mas deve saber o lugar a que me refiro.”

Meu professor deu um sorriso estranho. “Olhe”, disse ele, e com essas palavras pôs-se de gatinhas, com as mãos e os joelhos no chão. Fiz o mesmo (e como me machucou os joelhos) e vi que tinha arrancado uma folha de grama. Usando a sua haste afilada como um ponteiro, ele me fez ver, depois de olhar com todo cuidado, uma rachadura no solo, tão pequena que eu não teria podido identificá-la sem a ajuda dele.

“Não estou certo”, disse ele, “que seja esta a rachadura através da qual você veio. Mas de outra não maior do que esta você com certeza surgiu.”

“Mas — mas”, gaguejei, com um sentimento de perplexidade próximo ao terror. “Vi um abismo infinito. E penhascos erguendo-se cada vez mais altos. E depois este país no alto dos penhascos.”

“Está certo. Mas a viagem não foi uma simples locomoção. Aquele ônibus… e todos vocês dentro dele, estavam aumentando de tamanho.”

“Quer dizer então que o Inferno — toda aquela cidade vazia, infinita — está contida em alguma pequena rachadura como esta?”

“Sim. O Inferno inteiro é menor do que um pedregulho do seu mundo terrestre: mas é ainda menor do que um átomo deste mundo, o Mundo Real. Olhe para aquela borboleta. Se ela engolisse o inferno inteiro, ele não seria bastante grande para prejudicá-la de modo algum nem teria qualquer sabor.”

“Parece bem grande quando estamos dentro dele, senhor.”

“Todavia, toda solidão, ira, ódio, inveja e desejos nele contidos, se combinados numa só experiência e colocados na balança em oposição ao menor momento de gozo sentido pelo menor de todos no céu, não teria peso algum que pudesse ser registrado. O mal não pode ter êxito mesmo em ser mau, com tanta realidade como o bem é bom. Se todas as misérias do inferno viessem a colocar-se juntas diante daquele pequenino pássaro amarelo no ramo ali adiante, seriam engolidos sem deixar vestígios, como uma gota de tinta derramada no Grande Oceano do qual o seu Atlântico celestial não passa de uma simples molécula.”

“Entendo”, disse eu finalmente, “Ela não caberia no inferno.”Ele assentiu. “Não há espaço para ela. O inferno não poderia abrir até esse ponto a sua boca.”

“E não poderia ela diminuir? — como Alice?”

“Não o bastante. Pois uma alma condenada é praticamente nada: ela é encolhida, fechada em si mesma. O bem bate sobre os condenados incessantemente como as ondas de som batem no ouvido dos surdos, mas eles não podem recebê-las. Seus dedos estão dobrados, seus dentes cerrados, seus olhos fechados. Em primeiro lugar eles não querem, e no fim não podem abrir as mãos para receber as dádivas, a boca para serem alimentados, ou os olhos para ver.”

“Então ninguém poderá jamais chegar até eles?”

“Somente o Maior de Todos pode tomar-se suficientemente pequeno para entrar no inferno. Pois quanto mais elevada é uma coisa, tanto mais baixo pode descer — o homem pode ter simpatia por um cavalo, mas este não terá simpatia por um rato. Somente Alguém desceu ao inferno.”

“E Ele fará isso de novo?”

“Não faz muito tempo que fez isso. O tempo não funciona desse jeito uma vez que você deixa a Terra. Todos os momentos que fo-ram ou serão estavam, ou estão, presentes no momento de sua descida. Não há espírito em prisão ao qual não tivesse pregado.”

“E alguns dão-lhe atenção?”

“Sim.”

“Em seus livros, senhor”, disse eu, “o senhor era universalista. Falava como se todos os homens fossem ser salvos. E São Paulo também fez isso.”

“Você nada pode saber do fim de todas as coisas, ou nada que possa ser expresso nesses termos. Pode ser, como o Senhor disse à Senhora Juliana, que tudo acabará bem, e todas as coisas acabarão bem. Mas não é bom falar dessas questões.”

“Por serem demasiado terríveis, senhor?”

“Não. Porque todas as respostas enganam. Se colocar a questão do ponto de vista do Tempo e estiver perguntando sobre possibilidades, a resposta é uma certeza. A escolha dos meios está à sua frente. Todos são viáveis. Qualquer homem pode escolher a morte eterna. Os que fizerem essa opção vão tê-la. Mas se estiver tentando pular para a eternidade, se estiver tentando ver o estado final de todas as coisas, como elas serão, quando não restarem mais possibilidades mas apenas o que é Real, estará então perguntando o que não pode ser respondido aos ouvidos mortais. O tempo é a própria lente através da qual você vê — pequeno e claro, como os homens vêem pelo lado errado de um telescópio — algo que de outra forma seria grande demais para ser visto por você. Essa coisa é a Liberdade: o dom pelo qual você mais se assemelha ao seu Criador e é você mesmo parte da realidade eterna.

Mas você só pode vê-la através da lente do Tempo, num quadro pequeno e nítido, por meio do telescópio invertido. E uma cena de momentos seguindo-se uns aos outros e você em cada momento, fazendo uma escolha que poderia ter sido outra. Nem a sucessão temporal nem o espectro do que você poderia ter escolhido e não fez são, por si mesmos, a Liberdade. Eles são uma lente. O quadro é um símbolo: mais verdadeiro, porém, do que qualquer teorema filosófico (ou, talvez, que qualquer visão mística) que alega resolvê-lo. Pois toda tentativa de vislumbrar a forma da eternidade exceto através da lente do Tempo destrói o seu conhecimento da Liberdade.

Considere a doutrina da Predestinação que mostra (verazmente) que a realidade eterna não está aguardando um futuro em que venha a ser real; mas ao preço de anular a Liberdade que é a verdade mais profunda entre as duas. Não faria o universalismo o mesmo? Não se pode conhecer a realidade eterna mediante uma definição. O próprio tempo, e todos os atos e eventos que preenchem o Tempo, são a definição, e ela deve ser vivida, O Senhor disse que éramos deuses. Por quanto tempo você suportaria olhar (sem a lente do Tempo) para a grandiosidade de sua própria alma e a realidade eterna da sua escolha?”

O Grande Abismo [Cap12]

24/12/2010 § Deixe um comentário

A razão da minha pergunta sobre outro rio foi esta. De todo um lado da floresta, a parte de baixo dos ramos cheios de folhas tinha começado a tremer com uma luz dançante; e na terra eu nunca conhecera nada que pudesse produzir com tanta probabilidade essa aparência como as luzes refletidas pela água em movimento. Alguns momentos depois compreendi meu erro. Uma espécie de procissão se aproximava, e a luz vinha das pessoas que a compunham. Em primeiro lugar vinham Espíritos luminosos, não os espíritos dos homens, que dançavam e esparramavam flores — flores que caíam sem qualquer som, flutuando com leveza, embora pelos padrões do mundo espectral cada pétala devesse pesar uma tonelada e a sua queda soar como o troar de canhões. Depois, à esquerda e à direita, de cada lado da trilha na floresta, surgiram formas jovens, rapazes de um lado e moças do outro. Se eu pudesse lembrar-me do que cantavam e escrever as notas, homem algum que lesse essa partitura jamais ficaria doente ou envelheceria. Entre eles se achavam os músicos, e a seguir vinha uma senhora, em cuja honra tudo aquilo estava sendo feito.

Não me lembro agora se ela estava nua ou vestida. Se estava nua, então deve ter sido a quase visível penumbra da sua gentileza e alegria que produz em minha memória a ilusão de um manto imenso e esplendoroso que a seguia por sobre a grama brilhante. Se estivesse vestida, então a ilusão de nudez é sem dúvida resultado da claridade com que seu espírito interior cintilava através das roupas. Pois as vestes naquela terra não são um disfarce: o corpo espiritual vive juntamente com cada fio e os transforma em órgãos vivos. Um manto ou uma coroa fazem parte das características do usuário, da mesma forma que um lábio ou um olho.Mas, me esqueci, e apenas me lembro em parte da beleza quase insuportável de suas feições…

É…? é…?” falei baixinho ao meu guia.

“De modo algum”, respondeu. “Ë alguém de quem nunca ouviu falar. Seu nome na terra era Sara Prado e vivia numa cidadezinha.”

“Ela parece ser uma pessoa de particular importância?”

“Sim. E uma das grandes. Você ouviu que a fama neste país e na terra são duas coisas completamente diferentes.”

“E quem são essas pessoas gigantescas… olhe! Parecem esmeraldas… que estão dançando e jogando flores à frente dela?”

“Não leu o seu Milton? Mil anos de libré a servem”

“E quem são todos esses jovens de cada lado?”

“São seus filhos e filhas.”

“Ela deve ter tido uma família enorme.”

“Todo jovem a quem encontrava tornava-se seu filho mesmo que fosse o rapazinho que levava carne à porta dos fundos. Toda moça era sua filha.”

“Isso não tomava as coisas difíceis para os pais deles?”

“Não. Existem aqueles que roubam os filhos alheios. Mas a maternidade dela era de outro tipo. Aqueles com quem entrava em contato voltavam a seus pais amando-os mais. Poucos homens olhavam para ela sem se tomarem, de alguma forma, seus amantes. Mas era a espécie de amor que fazia deles maridos mais fiéis a suas mulheres e não menos

“É, como… mas, veja! O que são todos esses animais? Um gato

— dois gatos — dúzias de gatos. E todos esses cães… puxa, quase não posso contá-los. E os pássaros. E os cavalos.”

“São dela.”

“Tinha então uma espécie de zoológico? Quero dizer, acho isso um pouco demais.”

“Cada animal e ave que se aproximava dela tinha um lugar no seu amor. Nela se tornavam eles mesmos. E agora a abundância de vida que ela possui em Cristo, originada no Pai, flui na direção deles.”

Olhei surpreso para o meu Professor.

“E isso mesmo”, falou. “Pode ser comparado a uma pedra atirada em um lago, quando as ondas concêntricas se espalham cada vez mais para longe. Quem sabe onde irão parar? A humanidade remida ainda é jovem, está bem longe da plenitude de suas forças. Já existe, porém suficiente alegria no dedo mínimo de um grande santo tal como essa senhora ali para despertar todas as coisas mortas do universo, fazendo-as viver.”

Enquanto ele falava, a Senhora avançava firmemente em nossa direção, mas não olhava para nós. Seguindo o seu olhar, virei-me e vi um fantasma de forma estranha se aproximando. Ou, na verdade, dois fantasmas: um Fantasma grande e alto, horrivelmente magro e trêmulo, que parecia estar arrastando numa corrente um outro, não maior do que o macaquinho de um tocador de órgão. O Fantasma mais alto usava um chapéu preto de aba mole, e me fez lembrar de algo que minha memória não conseguia recordar. Então, quando chegou perto o bastante da Senhora, abriu as mãos trêmulas e magras sobre o peito com os dedos bem separados, e exclamou numa voz cava: “Finalmente!” Na mesma hora compreendi do que ele me fazia lembrar. Parecia-se com um ator desgastado da velha escola.

“Querido! Finalmente!” disse a Senhora. “Deus do céu!” pensei eu.

“Com certeza ela não…”, e notei então duas coisas. Em primeiro lugar notei que o pequeno fantasma não estava sendo arrastado pelo grande. Era o pigmeu que levava a corrente e a figura teatral usava o anel de ferro no pescoço. Em seguida, notei que a Senhora olhava unicamente para o Fantasma-Pigmeu. Ela parecia pensar que fora ele quem lhe falara, ou, ignorava deliberadamente o outro. Para o Pigmeu voltou os olhos, e o amor brotava não só de sua face, mas de todos os seus membros, como se fosse algum liquido em que acabara de banhar-se. Então, para meu espanto, ela chegou mais perto. Abaixou-se e beijou o Pigmeu. Era de estremecer vê-la em tão íntimo contato com aquela coisa fria, úmida, enfezada. Mas ela não estremeceu.

“Francisco”, disse ela, “antes de qualquer coisa me perdoe. Por tudo que fiz de errado e por tudo que não fiz certo desde o primeiro dia em que nos encontramos, peço que me perdoe.”

Olhei melhor para o Pigmeu pela primeira vez: ou, quem sabe, quando ele recebeu o beijo dela tornou-se um pouco mais visível. Era possível ter uma idéia do rosto que ele tivera quando homem: uma face pequena, oval, sardenta, com um queixo entrado e uma sombra de bigode. Ele relanceou os olhos para ela, sem olhá-la de frente, pois observava o Trágico com o canto dos olhos. Depois deu um puxão na corrente: e foi o Trágico e não ele que respondeu à Senhora.

“Tudo bem, não se preocupe. Não vamos mais falar nisso. Todos cometemos erros.” Ao dizer essas palavras, suas feições se contorceram horrivelmente, com o que penso ter sido o arremedo de um sorriso complacente e brincalhão. “Não falemos mais disso”, continuou. “Não estou pensando em mim mesmo, mas em você. E isso que tem estado sempre em meus pensamentos todos esses anos. Pensar em você, aqui, sozinha, sofrendo por minha causa.”

“Mas agora”, respondeu ela ao Pigmeu, “pode pôr tudo isso de lado. Não pense nunca mais desse jeito. Tudo acabou.”

A sua beleza brilhou tanto que eu mal podia ver qualquer outra coisa, e sob aquela doce compulsão o Pigmeu olhou realmente para ela pela primeira vez. Durante um segundo pensei que estivesse se transformando mais à semelhança de um homem. Ele abriu a boca. Ia falar ele mesmo desta vez. Mas, quanta desilusão quando se ouviram as suas palavras!

“Você sentiu minha falta?” grasnou numa voz chorosa.Mesmo assim ela não ficou perplexa. Mesmo assim o amor e a gentileza fluíam de sua pessoa.

“Querido, você vai logo compreender isso”, respondeu.

“Mas, hoje…”O que aconteceu em seguida chocou-me profundamente. O Pigmeu e o Trágico falaram juntos, não a ela, mas um para o outro.

“Você deve ter notado”, advertiram-se mutuamente, “que ela não respondeu à nossa pergunta.” Compreendi então que ambos eram uma única pessoa, ou antes, que ambos eram o remanescente do que fora um dia uma pessoa. O Pigmeu agitou de novo ruidosamente a corrente.

“Você sentiu minha falta?” disse o Trágico à Senhora, pondo na voz um ‘trêmulo’ teatral medonho.

“Querido amigo”, falou a Senhora, olhando ainda exclusivamente para o Pigmeu, “pode ficar descansado quanto a isso e tudo mais. Esqueça-se de tudo para sempre.”

Por um momento, eu realmente pensei que o Pigmeu ia obedecer: em parte porque os contornos de seu rosto se tornaram um pouco mais visíveis, e parcialmente porque o convite à alegria, cantando através de todo o seu ser como a canção de um pássaro numa noite quente, pareceu-me tão atraente que criatura alguma poderia resistir-lhe. Ele então hesitou. E depois, mais uma vez, os dois cúmplices falaram em uníssono.

“Naturalmente seria delicado e magnânimo não insistir”, disseram um ao outro. “Mas podemos estar certos de que ela notaria? Fizemos isso antes. Houve aquela vez em que permitimos que usasse o último selo para escrever à sua mãe e nada dissemos, embora ela soubesse que nós também queríamos mandar uma carta. Pensávamos que se lembrada e compreenderia como fomos generosos. Mas nunca fez isso. E aquela outra vez… oh, vezes sem conta!” E o Pigmeu sacudiu a corrente, então…

“Não posso esquecer-me”, bradou o Trágico. “E não quero também fazê-lo. Poderia perdoar tudo que me fizeram. Mas quanto às suas misérias…”

“Mas, não compreende?” disse a Senhora. “Não há misérias aqui.”

“Está querendo dizer”, respondeu o Pigmeu, como se esta nova idéia fizesse com que se esquecesse completamente do Trágico por um momento. “Quer dizer que tem sido feliz?”

“Você não queria isso? Mas, não importa. Queira agora, ou não pense sobre o assunto de maneira alguma.”

O Pigmeu piscou os olhos. Era possível ver uma idéia absoluta-mente inconcebível entrando em sua pequenina mente: era possível ver também que nela havia algo de doçura para ele. Por um segundo ele quase deixou cair a corrente, mas, depois, como se fosse um salva-vidas, agarrou-a de novo.

“Olhe aqui”, disse o Trágico. “Temos de enfrentar isto.” Ele estava usando desta vez o seu tom “viril”, aquele empregado para levar as mulheres a caírem em si.

“Querido”, disse a Senhora ao Pigmeu, “não há nada a enfrentar Você não haveria de querer que eu fosse infeliz por amor à infelicidade. Só acha que devo ter sido caso amasse você. Mas se esperar verá que não é assim.”

“Amor!”, e o Trágico bateu na testa com a mão; depois, em voz mais baixa e profunda, “Amor! Você sabe o que significa essa palavra?”

“Como poderia não saber?” respondeu ela. “Pedi-lhe que me perdoasse. Havia um pouco de amor real nisso. Mas o que chamávamos de amor lá embaixo era quase que só o desejo de ser amado. Em grande parte amei você por mim mesma, porque precisava de você.”

“E agora?” disse o Trágico corn um gesto vulgar de desespero.

“Agora, você não precisa mais de mim?”

“E claro que não!” replicou a Senhora, e o sorriso dela me fez ficar imaginando como os dois fantasmas podiam deixar de gritar de alegria.

“Que necessidade poderia eu ter”, disse ela, “agora que tenho tudo? Estou plenamente satisfeita, e não vazia. Estou no próprio Amor, e não me sinto solitária. Sou forte, e não fraca. Você será assim também. Venha e veja. Não teremos mais necessidade um do outro: podemos começar a amar verdadeiramente.”

Mas o Trágico ainda estava assumindo atitudes. “Ela não precisa mais de mim, não precisa. Não precisa”, disse ele numa voz abafada, para ninguém em particular. “Eu preferia”, continuou, “eu preferia vê-la morta a meus pés a ouvir essas palavras. Morta a meus pés. Morta a meus pés.” Não sei por quanto tempo a criatura pretendia continuar repetindo essa frase, pois a Senhora pôs um ponto final na cena. “Francisco!

Francisco!” bradou num tom de voz que fez toda a floresta vibrar.

“Olhe para mim. Olhe para mim. O que você está fazendo com esse boneco enorme e feio? Largue a corrente. Mande-o embora. E você que eu quero. Não vê como ele está falando bobagens?” A alegria brilhou em seus olhos. Ela estava partilhando uma brincadeira com o Pigmeu, bem por cima da cabeça do Trágico. Algo parecido com um sorriso lutava para surgir no rosto do Pigmeu. Pois ele estava olhando para ela agora. O riso dela atravessara as suas defesas. Ele se esforçava para mantê-lo afastado, mas sem consegui-lo. Contra a sua vontade, estava até mesmo crescendo. “Oh, você, seu tolinho”, disse ela, “o que adianta falar desse jeito aqui? Você sabe que me viu mesmo morta há anos e anos. Não ‘aos seus pés’, na-turalmente, mas num leito de hospital. E um ótimo hospital. A Enfermeira Chefe jamais pensaria em deixar corpos caídos pelo chão! E ridículo que esse boneco tente impressionar alguém falando de morte aqui. Não vai conseguir nada

O Grande Abismo [Cap 11]

22/12/2010 § Deixe um comentário

Um dos encontros mais tristes que testemunhamos foi entre um Fantasma-Mulher e um Espírito Luminoso que aparentemente tinha sido irmão dela. Eles deviam ter acabado de encontrar-se quando chegamos perto dos dois, pois o Fantasma dizia com um tom de evidente decepção: “Oh… Reginaldo! É você, não é?”

“Sim, querida”, disse o Espírito. “Sei que esperava outra pessoa. Mas… espero que fique um pouco contente por ver pelo menos a mim, no momento.”

“Pensei que Miguel viria”, respondeu ela; e então, com veemência:

“Ele está aqui, não está?”

“Está lá, no alto das montanhas.”

“Por que não veio encontrar-me? Não sabia?”

“Minha cara (não se preocupe, tudo sairá bem) não seria oportuno. Ainda não. Ele não poderia vê-la ou ouvi-la como se acha agora. Você estaria completamente invisível para Miguel. Mas logo lhe daremos forma.”

“Na minha opinião, se você pode ver-me, meu próprio filho não poderia?”

“Isso nem sempre acontece. Veja bem, eu me especializei neste tipo de trabalho.”

“O, é um trabalho, não é?” ripostou a mulher Fantasma. E, após uma pausa, “Bem, quando vou receber permissão para vê-lo?”

“Não se trata de permissão, Pamela. Tão logo ele possa ver você, naturalmente fará isso. Você precisa ser encorpada, pelo menos um pouco.”

“Como?” perguntou o Fantasma. O monossílabo foi dito com dureza e um certo tom de ameaça.

“O primeiro passo é um pouco difícil”, falou o Espírito. “Mas depois tudo corre como sobre rodas. Você ficará suficientemente sólida para que Miguel possa vê-la, quando tiver aprendido a desejar Alguém Mais além de Miguel. Não quero dizer ‘mais do que Miguel’, não no começo. Isso virá mais tarde. Para começar o processo só precisamos de um pequenino germe de desejo por Deus.”

“Você está se referindo à religião e a todo esse tipo de coisa? Este não é o momento adequado… e isso vindo de você, especialmente. Bem, não importa. Farei o que for necessário. O que quer de mim? Vamos. Quanto mais cedo começarmos, melhor. E então poderei ver o meu menino. Estou pronta!”

“Mas, Pamela, pense! Você não vê que não pode começar nada enquanto estiver nessa condição mental? Está tratando Deus apenas como um meio de alcançar Miguel. Mas todo o tratamento de solidificação consiste em aprender a desejar Deus por Ele mesmo.”

“Você não falaria desse jeito se fosse mãe.”

“Você está querendo dizer, se eu fosse apenas uma mãe. Mas, você existe como mãe de Miguel somente porque existe em primeiro lugar como uma criatura de Deus. Esse relacionamento é mais antigo e mais próximo. Não, ouça Pamela! Ele também ama. Ele também sofreu. Ele também aguardou muito tempo.”

“Se Ele me amasse permitiria que visse meu filho. Se me amava, por que tirou Miguel de mim? Eu não ia dizer nada sobre isso. Mas é difícil perdoar, você sabe.”

“Mas, ele teve de tirar Miguel. Em parte para o bem dele…

“Mas, estou certa de que fiz Miguel feliz. Empenhei toda a minha vida…”

“Os seres humanos não podem fazer uns aos outros felizes por muito tempo. E, em segundo lugar, por sua causa. Ele queria que o seu amor puramente instintivo pelo seu filho (as tigresas partilham desse sentimento, você sabe!) se transformasse em algo superior. Queria que você amasse Miguel como Ele compreende o amor. Não é possível amar um semelhante perfeitamente até que se ame a Deus. Algumas vezes esta conversão pode realizar-se enquanto o amor instintivo ainda está sendo satisfeito. Mas não havia, ao que parece, nenhuma possibilidade disso em seu caso. O instinto era incontrolável, selvagem e monomaníaco. (Pergunte à sua filha ou a seu marido. Pergunte à sua própria mãe. Você não pensou nela sequer uma vez.) O único remédio era remover o objeto desse sentimento. Era um caso cirúrgico. Quando esse primeiro tipo de amor fosse contrariado, haveria então uma pequena possibilidade de que na solidão, no silêncio, alguma outra coisa pudesse começar a desenvolver-se.”

“Isso tudo é loucura — loucura cruel e perversa. Que direito você tem de dizer essa coisa sobre o amor materno? E o sentimento mais nobre e santo na natureza humana.”

“Pamela querida, os sentimentos naturais não são superiores ou inferiores, santos ou profanos, em si mesmos. Eles são todos santos quando a mão de Deus os governa, mas tudo se perverte quando eles se transformam em falsos deuses.”

“Meu amor por Miguel jamais se perverteria. Nem que vivêssemos juntos um milhão de anos.”

“Você está enganada, e sabe disso. Você não encontrou, lá embaixo, mães acompanhadas de seus filhos, no Inferno? O amor delas os torna felizes?”

“Se você está se referindo a Geralda Gama e seu detestável Nelsinho, claro que não. Penso que não está sugerindo… Se Miguel estivesse comigo eu seria perfeitamente feliz, mesmo naquela cidade. Não ficaria falando sobre ele até que todos odiassem o som do seu nome, que é o que Geralda faz com o pirralho dela. Não brigaria com as pessoas por não darem atenção a ele e depois me mostrar invejosa quando fazem isso. Não me queixaria nem lamentaria péla sua falta de delicadeza comigo. Pois, naturalmente, ele seria delicado. Não ouse insinuar que Miguel algum dia poderia ser um menino como o dos Gama. Há coisas que não consigo suportar.”

“O que você viu nos Gama é o resultado da afeição natural, quando não convertida.”

“Isso é mentira. Uma mentira maldosa, cruel. Como poderia alguém amar mais a seu filho do que eu? Não vivi apenas para a sua memória todos esses anos?”

“Isso foi um erro, Pamela. No fundo do seu coração você sabe que foi.”

“O que foi um erro?”

“Esses dez anos de tristeza. Deixando o quarto dele exatamente como era; lembrando os aniversários; recusando-se a sair daquela casa embora Ricardo e Maria se sentissem miseráveis nela.”

“Caro que não se importavam, sei disso. Logo aprendi a não esperar qualquer simpatia por parte deles.”

“Você está enganada. Homem algum sentiu tanto a morte do filho como Ricardo. Poucas pessoas amaram seus irmãos mais do que Maria. Não foi contra Miguel que eles se revoltaram, mas contra você; contra o fato de permitir que sua vida fosse dominada pela tirania do passado. Nem mesmo, na verdade, o passado de Miguel, mas o seu.”

“Você é cruel. Todos são cruéis. O passado era tudo o que eu tinha.”

“Foi tudo o que você escolheu ter. Esse não é o melhor modo de enfrentar o sofrimento. Você usou o costume egípcio: o embalsamamento de um corpo morto.”

“O, está bem. Estou errada. Tudo o que digo ou faço é errado para você.”

“E isso mesmo!” replicou o Espírito, brilhando de amor e alegria, de forma tal que meus olhos ficaram ofuscados. “E isso que todos descobrimos quando chegamos a este país. Todos somos errados! Essa é a grande piada! Não há necessidade de continuar fingindo que estamos certos! Depois disso começamos a viver.”

“Como tem coragem de rir? De-me o meu filho. Ouviu bem? Não me importo com todas as suas regras e regulamentos. Não creio num Deus que separa mãe e filho. Acredito num Deus de amor. Ninguém tem o direito de se colocar entre mim e meu filho. Nem mesmo Deus. Diga isso a Ele diretamente. Quero meu menino, e vou ficar com ele. Ele é meu, está entendendo? Meu, meu, meu, para sempre e sempre.”

“Ele será, Pamela. Tudo será seu. O próprio Deus lhe pertencerá. Mas não desse modo. Nada pode ser seu pela natureza.”

“O quê? Nem meu próprio filho, nascido de meu corpo?”

“E onde está seu corpo agora? Você não sabia que a Natureza se dirige para um fim? Olhe! O sol está surgindo sobre as montanhas, ele subirá a qualquer momento.”

“Miguel é meu.”

“De que forma ele é seu? Você não o fez. A natureza fez com que crescesse no seu corpo, sem a colaboração da sua vontade. E até mesmo contra a sua vontade… você algumas vezes se esquece que não queria ter um bebê naquela época. Miguel foi de fato um Acidente.”

“Quem lhe contou isso?” perguntou a Mulher-Fantasma. E, a seguir, recobrando a calma, “é uma mentira. E você não tem nada a ver com isso. Odeio a sua religião e odeio e desprezo o seu Deus. Acredito num Deus de Amor.”

“No entretanto, Pamela, você não tem qualquer amor neste momento por sua própria mãe ou por mim.”

“Oh, estou percebendo! Então essa é a dificuldade, não é? Realmente, Reginaldo! A idéia de que fique magoado porque…”

O Espírito deu uma grande risada. “Não se preocupe com isso! Você não sabia que não pode ferir ninguém neste país?”Ela ficou silenciosa e estarrecida por um momento, mais abatida, penso eu, por esta afirmativa do que por qualquer outra coisa que tivesse sido dita antes.

“Venha. Vamos seguir adiante”, disse meu Professor, colocando a mão em meu braço.

“Por que me afastou dali?” perguntei quando nos distanciamos o suficiente para não sermos ouvidos pela infeliz.

“Aquela conversa podia durar muito”, falou o Professor. “E você ouviu o bastante para saber qual vai ser a escolha.”

“Há qualquer esperança para ela, Senhor?”

“Existe alguma. O que chama de amor pelo filho se transformou em algo pobre, espinhoso. Mas existe ainda uma pequenina centelha que não é apenas o seu próprio “eu”, e ela pode crescer, virando uma chama.”

“Então alguns sentimentos naturais são melhores do que outros — quero dizer, são um ponto de partida melhor para a coisa real?”

“Melhores e piores. Existe algo na afeição natural que irá levá-la até o amor eterno mais facilmente do que o apetite natural poderia ser levado. Mas há também algo nela que toma mais simples parar no nível natural e considerá-lo como sendo o celestial. O bronze é mais facilmente confundido com o ouro do que a argila. E se finalmente recusar a conversão, a sua corrupção será maior do que a daquelas que você chamaria, de paixões inferiores. Trata-se de um anjo mais forte e, portanto, quando cai, de um diabo mais selvagem.”

“Acho que não ousaria repetir isso na terra, senhor”, disse eu.

“Afirmariam que era desumano: diriam que acreditava na depravação total; ou que estava atacando as coisas melhores e mais santas. Me chamariam de…

“Talvez não lhe fizesse mal se agissem assim”, disse ele com um brilho risonho nos olhos.

“Mas poderia alguém, teria alguém coragem de falar com uma mãe enlutada, em sua miséria — quando não sentimos nós mesmos qualquer dor?…”

“Não, nada disso, Filho, esse não é o seu trabalho. Você não é bastante bom para isso. Quando o seu próprio coração tiver sido traspassado, então será hora de pensar em falar. Mas alguém precisa dizer de maneira geral o que não foi dito entre vocês há bastante tempo: o amor, como os mortais entendem a palavra, não basta. Todo amor natural ressuscitará e viverá para sempre neste país, mas nenhum irá ressuscitar se não tiver sido sepultado.”

“Essas palavras são quase duras demais para nós.”

“Ah, mas é cruel não dizê-las. Os que sabem passaram a ter medo de falar. Essa é a razão porque tristezas que antes serviam para purificar, agora apenas corrompem.”

“Keats estava então errado quando disse que tinha certeza da santidade dos afetos do coração.”

“Duvido que ele soubesse bem do que estava falando. Mas nós dois devemos ser claros. Só existe um único ser bom, e esse é Deus. Tudo o mais é bom quando olha para Ele e mau quando se afasta dEle. E quanto mais alto e poderoso estiver ele na ordem natural, tanto mais demoníaco será se rebelar-se. Não é de ratos ou pulgas perversos que se fazem demônios, mas dos maus arcanjos. A falsa religião da cobiça é mais sórdida do que a falsa religião do amor maternal, do patriotismo ou da arte; mas é menos provável que a cobiça seja transformada em religião. Veja, porém, o que vem vindo!”

Vi encaminhar-se para nós um Fantasma que levava alguma coisa no ombro. Como todos os Fantasmas, ele era insubstancial, mas eles diferiam uns dos outros como acontece com as diversas espécies de fumaça. Alguns eram esbranquiçados, mas este parecia escuro e oleoso. Sentado em seu ombro estava um pequeno lagarto vermelho, torcendo a cauda como se fosse um chicote e murmurando coisas em seu ouvido. Quando o avistamos, ele virou a cabeça para olhar o réptil, dizendo impaciente: “Cale-se, já mandei!” O bicho balançou a cauda e continuou sussurrando. O Fantasma parou de censurá-lo e começou até a sorrir. Depois voltou-se e começou a coxear em direção oposta às montanhas, para o oeste.

“Já vai embora tão cedo?” disse uma voz.Quem falava tinha a forma geral humana, mas era maior do que um homem, e tão brilhante que eu mal podia olhar para ele. A sua presença atingiu-me nos olhos e também no corpo (pois ele emanava tanto calor como luz) como o sol da manhã no início de um tórrido dia de verão.

“Sim, já vou”, disse o Fantasma. “Obrigado pela hospitalidade. Mas, como vê, não adianta. Falei a este pequeno camarada (e aqui ele apontou para o lagarto) que teria de ficar calado se viesse,o que insistiu em fazer. Naturalmente sua conversa não seria aceita aqui. Mas ele não quer parar. Tenho de ir para casa.”

“Você gostaria de fazê-lo calar?” perguntou o Espírito flamejante — um anjo, como soube então.

“Claro que sim”, disse o Fantasma.

“Vou então matá-lo”, falou o Anjo, avançando um passo.

“Oh — ah — cuidado! Você está me queimando. Fique de longe”, exclamou o Fantasma, retrocedendo.

“Não quer que ele seja morto?”

“Você não disse nada sobre matá-lo no princípio. Eu não pensava em perturbá-lo com algo tão drástico assim.”

“E o único modo”, falou o Anjo, cujas mãos em chamas estavam agora muito próximas do lagarto. “Devo matá-lo?”

“Bem, isso é outra questão. Estou pronto a considerá-la, mas isso é novidade, não é? Quero dizer, no momento eu só estava pensando em silenciá-lo porque aqui — bem, é muito embaraçoso.”

“Posso mata-lo?”

“Bem, há tempo para discutir isso mais tarde.”

“Não há tempo. Posso matá-lo?”

“Por favor, nunca pensei em causar tanto problema. Por favor, realmente, não se preocupe. Veja! Ele dormiu por si mesmo. Estou certo de que tudo estará bem agora. Obrigado.”

“Posso matá-lo?”

“Honestamente, não acho que haja qualquer necessidade disso. Estou certo de que irei mantê-lo na linha daqui por diante. Penso que um processo gradual seria muito melhor do que exterminá-lo.”

“O processo gradual de nada valeria.”

“Acha isso? Bem, vou pensar cuidadosamente no que disse. Vou mesmo. De fato permitiria que o matasse agora, mas não estou me sentindo muito bem hoje. Seria tolice fazê-lo agora. Eu precisaria estar bem para a operação. Algum outro dia, talvez.”

“Não há outro dia. Todos os dias estão presentes agora.”

“Afaste-se! Você está me queimando. Como posso mandar que o mate? Você estaria me matando.”

“Isso não aconteceria.”

“Mas, está me machucando.”

“Eu não disse que não iria machucá-lo, apenas que não o mataria.”

“Ah, já sei. Pensa que sou covarde. Mas não é nada disso. Realmente não é. Olhe, deixe que volte no ônibus da noite e consulte meu médico. Voltarei logo que puder.”

“Este momento contém todos os momentos.”

“Por que me tortura? Está zombando de mim. Como posso permitir que me faça em pedaços? Se quisesse me ajudar, por que não matou o diabo da coisa sem me perguntar — antes que eu soubesse? Tudo estaria terminado, se tivesse feito isso.”

“Não posso matá-lo contra a sua vontade. É impossível. Tenho a sua permissão?”

As mãos do Anjo estavam quase fechadas sobre o lagarto, mas não de todo. Então o animal começou a conversar com o Fantasma tão alto que até eu podia ouvir o que dizia.

“Tenha cuidado”, disse. “Ele pode fazer o que diz. Pode matar-me. Uma palavra fatal de seus lábios e fará isso. Então ficará sem mim para sempre. Não é natural. Como iria viver? Seria apenas uma espécie de fantasma, e não um homem verdadeiro como é agora. Ele não compreende. Não passa de uma coisa abstrata, fria, sem sangue. Pode ser natural para ele, mas não para nós. Eu sei, eu sei. Sei que não existem prazeres reais agora, somente sonhos. Mas, eles não são melhores do que nada? E vou ser tão bom. Admito que exagerei algumas vezes no passado, mas prometo não repetir. Só lhe darei sonhos bons — doces, refrescantes e quase inocentes. Você até poderia dizer, muito inocentes…

“Tenho a sua permissão?” disse o Anjo ao Fantasma.

“Sei que isso iria matar-me.”

“Não iria, mas, e se fosse assim?”

“Você está certo. Seria melhor estar morto do que viver com esta criatura.”

“Posso então?”

“Maldito seja você! Ande logo! Acabe com tudo. Faça o que quiser”, berrou o Fantasma, mas no fim, acabou se lastimando: “Deus me ajude. Deus me ajude.”

No momento seguinte o Fantasma deu um grito de agonia como eu jamais ouvira na terra. O Queimador fechou a mão carmesim sobre o réptil, enquanto ele mordia e se retorcia, e depois, atirou-o, com a espinha quebrada, sobre a grama.

“Oh, isso acabou comigo”, ofegou o Fantasma, cambaleando para trás.

Durante alguns minutos nada pude ver distintamente. Mas, a seguir, entre mim e o arbusto mais próximo, indiscutivelmente sólido e tomando-se cada vez mais sólido, pude ver o antebraço e o ombro de um homem. Depois, mais brilhantes ainda e mais fortes, as pernas e as mãos. O pescoço e a cabeça dourada se materializaram enquanto eu observava, e se minha atenção não se tivesse desviado, eu teria visto o acabamento completo de um homem — um ser imenso, nu, não muito menor do que o Anjo. O que me distraiu foi o fato de que nesse mesmo momento algo pareceu estar acontecendo com o lagarto. A princípio, pensei que a operação tivesse falhado, pois longe de ter morrido, a criatura continuava se debatendo, e até mesmo crescendo enquanto se debatia. E conforme crescia ia-se transformando. Suas partes traseiras aumentaram. A cauda, ainda trêmula, tornou-se uma cauda peluda que se movia entre nádegas enormes e lustrosas. De repente dei um passo para trás, esfregando os olhos. O que estava à minha frente era o maior garanhão que já vira, branco como prata mas com a crina e a cauda douradas. Era macio e lustroso, deixando entrever as camadas de carne e músculos, rinchando e batendo as patas. A cada batida a terra tremia e as árvores vibravam.

O homem recém-nascido voltou-se e deu uma palmada no pescoço do cavalo também novo. Este esfregou o focinho no corpo brilhante. Cavalo e cavaleiro sopraram um nas narinas do outro. O homem afastou-se dele, lançou-se aos pés do Queimador, e abraçou-os. Quando se levantou pensei que sua face brilhava de lágrimas, mas pode ter sido apenas o amor líquido e o brilho (não é possível distingui-los naquele país) que fluíam dele. Não pude pensar por muito tempo no assunto. Numa pressa alegre o jovem pulou sobre o dorso do cavalo. Voltando-se na sela fez um gesto de despedida, depois esporeou o animal com os calcanhares. Partiram antes que eu soubesse bem o que tinha acontecido. Saí o mais depressa possível de entre os arbustos para segui-los com os olhos; mas eles já pareciam uma estrela cadente, distantes na planície verde, e logo chegaram ao sopé das montanhas. Depois, ainda como uma estrela, eu os vi subindo, escalando o que pareciam ter escarpas inescaláveis, e mais depressa a cada momento, até que próximo à borda indistinta do cenário, tão alto que tive de esticar o pescoço para vê-los, eles desapareceram, luminosos, na luz rosada daquela manhã eterna.

Enquanto eu ainda observava, notei que toda a planície e a floresta estremeciam devido a um som que em nosso mundo seria alto demais para ser ouvido, mas ali eu podia aceitá-lo com alegria. Eu sabia que não eram os Sólidos que estavam cantando. Era a voz daquela terra, daquelas florestas, daquelas águas. Um ruído estranho, arcaico, inorgânico, que vinha de todas as direções ao mesmo tempo. A Natureza ou Arquinatureza daquela terra se rejubilava por ter sido mais uma vez montada e, portanto, consumada, na figura do cavalo. Ela cantava:

“O Mestre diz ao nosso mestre, Venha. Partilhe do meu descanso e esplendor, até que todas as naturezas que foram suas inimigas se tornem escravas para dançar à sua frente e dorsos a serem montados, e firmeza para os seus pés se apoiarem,” “Dalém de todo lugar e tempo, saindo do próprio Lugar, autoridade lhe será concedida: as forças que antes se opuseram à sua vontade serão fogo obediente em seu tanque e estrondo celestial em sua voz.Vença-nos, ó! vença-nos, para que possamos ser nós mesmos: desejamos o início do seu reino como desejamos a madrugada e o orvalho, umidade no nascimento da luz.Mestre, o seu Mestre o destinou para sempre: para ser nosso Rei de Justiça e nosso Sumo Sacerdote.”

“Você entende tudo isto, meu filho?” perguntou o Professor.

“Não entendo tudo, senhor”, disse eu. “Estou certo em pensar que o lagarto se transformou realmente no cavalo?”

“Sim. Mas ele foi morto primeiro. Não se esquecerá dessa parte da história?”

“Tentarei não esquecer, senhor. Mas isso significa que tudo — tudo — que está em nós pode ir para as Montanhas?”

“Nada, nem mesmo o melhor e mais nobre, pode subir como se encontra agora. Nada, nem mesmo o que é mais inferior e mais bestial, deixará de ser ressuscitado se se submeter à morte. O corpo natural é semeado, o espiritual ressuscitado. Carne e sangue não podem subir as montanhas. Não por serem grosseiros demais, mas pela sua fraqueza. O que é um lagarto comparado com um garanhão? A luxúria não passa de algo pobre, fraco, choramingas, sussurrantes, em comparação com aquela riqueza e energia do desejo que surge quando a cobiça é abatida.”

“Devo então contar em casa que a sensualidade desse homem foi um obstáculo menor do que o amor daquela pobre mulher pelo seu filho? Pois o dela foi, em qualquer caso, um excesso de amor.”

“Não lhes dirá nada disso”, replicou com firmeza. “Excesso de amor, disse você?” Não havia excesso, havia defeito. Ela amava filho de menos, e não demais. Se tivesse amado mais não haveria dificuldade. Não sei como o caso dela vai terminar, mas é bem possível que justamente agora esteja exigindo que fique com ela no inferno. Esse tipo é algumas vezes perfeitamente capaz de lançar a alma que dizem estremecer na mais terrível desgraça, se puderem de alguma forma continuar a possuí-la. Não. Você precisa aprender extrair outra lição. Deve perguntar, se o corpo ressuscitado de um apetite é grande como um cavalo como viu, como seria o corpo ressuscitado do amor maternal ou da amizade?”

Minha atenção foi porém mais uma vez desviada. “Existe outro rio, senhor?” perguntei.

O Grande Abismo [Cap 10]

22/12/2010 § Deixe um comentário

Nós também ouvimos esta conversa:

“Isso está absolutamente fora de questão”, disse um Fantasma-mulher para uma das Luminosas. “Não posso nem cogitar de permanecer aqui se tiver de encontrar-me com Roberto. Estou pronta a perdoá-lo, naturalmente. Mas qualquer coisa além disso é impossível. Como ele chegou aqui… mas, isso é com vocês.”

“Mas, se você o perdoou”, disse a outra, “certamente…”

“Eu o perdôo como cristã”, falou a Fantasma. “Mas há coisas que a gente nunca pode esquecer.”

“Mas, não compreendo…”, começou o Espírito-Mulher.

“Exatamente”, replicou com uma pequena risada. “Você nunca entendeu. Sempre achou que Roberto não podia errar. Eu sei. Por favor, não me interrompa por um momento. Você não tem a mínima idéia do que passei com o seu querido Roberto. Quanta ingratidão! Fui eu quem fez dele um homem! Sacrifiquei-me toda a minha vida! E qual foi a recompensa? Egoísmo puro e absoluto. Não, ouça apenas. Ele vegetava com um ordenado miserável quando nos casamos. E, preste atenção, Hilda, ele continuaria nessa posição até morrer se não fosse por mim. Fui eu quem precisei guiá-lo a cada passo. Ele não tinha um átomo de ambição. Era como se eu quisesse levantar um saco de carvão. Precisei realmente obrigá-lo para que aceitasse aquele trabalho extra no outro departamento, embora isso acabasse sendo o começo de tudo para ele. Como os homens são preguiçosos! Ele afirmava, veja só, que não podia trabalhar mais de treze horas por dia! Como se eu não trabalhasse muito mais do que isso. Pois o meu dia de trabalho não tinha terminado quando o dele findava. Eu precisava espicaçá-lo todas as noites. Se deixasse a seu cargo, ficava contente em abandonar-se numa poltrona e ficar calado depois do jantar. Precisava arrancá-lo de si mesmo e manter a conversa. Sem qualquer ajuda dele, é claro.

“Cheguei até a dizer-lhe que eu julgava que não deveria esquecer-se pelo menos das boas maneiras… eu continuava sendo uma senhora apesar de ter-me casado com ele. E todo tempo me matava por causa dele, sem ser apreciada. Passava horas arranjando os vasos de flores para embelezar aquela casinha acanhada, e em vez de me agradecer, o que você pensa que disse? Falou que preferida que eu não enchesse a escrivaninha com elas, quando queria usá-la. E tivemos uma briga terrível certa noite só porque derramei água de um vaso sobre alguns papéis inúteis dele. Tudo bobagem, porque na verdade não se tratava de trabalho. Ele tinha uma idéia tola de escrever um livro naqueles dias… como se pudesse. Acabei por curá-lo dessa mania afinal.

“Não, Hilda, você precisa ouvir-me. Quanto trabalho tive em promover recepções. A idéia de Roberto era fugir sozinho de vez em quando para avistar-se com o que chamava de seus velhos amigos… e deixar que me divertisse por mim mesma! Mas desde o começo eu sabia que aqueles amigos não o ajudavam em nada.

‘Nada disso, Roberto’, disse eu, ‘seus amigos são agora meus. É meu dever recebê-los aqui, por mais cansada que esteja e mesmo que não tenhamos quase meios para isso. ’ Qualquer um julgaria que tal coisa bastaria. Eles na verdade apareceram algumas vezes.

Foi quando precisei usar um pouco de tato. A mulher inteligente sempre pode jogar uma palavra aqui e outra ali. Eu queria que

Roberto os visse em outro cenário. Eles não ficaram à vontade, de forma alguma, em minha sala de visitas. Eu não podia deixar de rir às vezes. Roberto não ficou naturalmente muito contente enquanto eu os submetia àquele tratamento, mas tudo era para o seu próprio bem. Ninguém daquele grupo continuou a amizade com ele no final do primeiro ano.

“Foi então que conseguiu o novo emprego. Um grande avanço. Mas, o que pensa que aconteceu? Em lugar de compreender que tínhamos agora oportunidade de nos exibir um pouco, tudo o que disse foi: ‘Bem, agora, pelo amor de Deus, vamos ter finalmente paz.’ Isso quase acabou comigo. Quase desisti dele de uma vez: mas eu sabia qual era o meu dever. Sempre o cumpri. Você não imagina o trabalho que tive para convencê-lo a mudar para uma casa maior, e depois para encontrá-la. Eu não teria relutado nem um pouco se ele tivesse encarado a coisa com o espirito certo — se tivesse apenas compreendido o divertimento que havia em tudo aquilo. Se Roberto fosse diferente, seria divertido encontrá-lo na porta da frente quando voltasse do escritório e dizer: ‘Venha, Boto, não temos tempo de jantar hoje. Acabei de ouvir falar de uma casa num bom bairro. Tenho as chaves e podemos vê-la imediatamente.’ Mas, com ele! Tudo acabava mal, Hilda. O seu precioso Roberto a esta altura estava se transformando no tipo de homem que não pensa em nada senão em comer.

“Consegui finalmente levá-lo para a nova casa. Bem sei que era um pouco mais cara do que podíamos pagar na ocasião, mas toda sorte de oportunidades estava se abrindo para ele. Eu naturalmente comecei a receber como devia. Não mais o tipo de amigos que tinha antes. De modo nenhum. Estava fazendo tudo por causa dele. Todo amigo útil que fez foi por meu intermédio. Eu tinha de me vestir bem, como é natural. Aqueles poderiam ter sido os anos mais felizes de nossa vida de casados. Se isso não aconteceu, a culpa foi exclusivamente dele. Oh, Beto era simplesmente de enlouquecer! Decidiu deixar-se ficar velho, silencioso e difícil. Engolfou-se em si mesmo. Poderia ter parecido muito mais jovem se quisesse. Não precisava andar curvado estou certa de que o adverti sobre isso o suficiente. Era o pior dos anfitriões. Toda vez que dávamos uma festa eu tinha de fazer tudo sozinha: Roberto era um peso morto.

“Eu lhe dizia (e não disse uma única, mas milhões de vezes), que ele nem sempre fora assim. Houve tempo em que se interessava por toda espécie de coisas e gostava de fazer amigos. ‘O que está acontecendo com você?’ eu costumava dizer. Mas agora ele nem sequer respondia. Ficava ali sentado, olhando para mim com seus olhos grandes (acabei por odiar homens de olhos escuros) e — sei agora — me odiando. Foi essa a minha recompensa. Depois de tudo que fiz. Um ódio perverso, sem motivo: justamente na hora em que tornou-se mais rico do que jamais poderia ter sonhado ser!“Os homens mais jovens que freqüentavam nossa casa não era minha culpa se eles gostavam mais de mim do que do urso de meu marido — costumavam rir às custas dele.”

“Cumpri meu dever até o fim. Forcei-o a fazer ginástica — essa foi realmente a principal razão para termos um dogue alemão. Continuei dando festas. Levei-o a lugares maravilhosos nas férias. Fazia tudo para que não bebesse demais. Cheguei até, quando as coisas se mostraram desesperadas, a encorajá-lo a escrever de novo. Isso não poderia prejudicá-lo então. Que culpa tenho se ele acabou tendo um colapso nervoso? Minha consciência está limpa. Cumpri minha obrigação com ele. Veja então porque seria impossível encontrá-lo.

“Todavia… não sei. Penso que mudei de idéia. Vou fazer-lhes uma proposta justa, Hilda. Não vou encontrar-me com ele, se for apenas para isso e nada mais. Mas se me derem carta branca, tomo conta dele de novo. Volto a carregar o meu fardo. E preciso porém que me deixem livre. Com todo o tempo que devemos ter aqui, acredito que poderia fazer ainda algo dele. Em algum lugar, sozinhos. Não é um bom plano? Ele não tem capacidade para dirigir-se. Deixe que me encarregue disso. Precisa de rédeas curtas. Eu o conheço melhor do que você. O quê? Não, eu quero que o dê a mim, está ouvindo? Nada de consultá-lo. Apenas o entregue a mim. Sou sua esposa, não sou? Estava apenas começando. Há milhares e milhares de coisas que ainda quero fazer com ele. Não, ouça, Hilda. Por favor, por favor! Sinto-me tão miserável. Preciso de alguém a quem possa ajudar. E simplesmente horrível lá embaixo. Ninguém se importa comigo. E medonho vê-los sentados por ali e não poder fazer nada com eles. Você precisa devolvê-lo a mim. Por que ele deve ter tudo como quer? Não é bom para ele. Não é certo, não é justo. Eu quero Roberto. Que direito tem você de mantê-lo afastado de mim? Eu odeio você. Como posso vingar-me se você não devolvê-lo?”

O Fantasma que se avantajara como uma vela prestes a extinguir-se deu um estalo repentino. Um cheiro azedo e seco pairou por um momento no ar e logo não havia mais nenhum Fantasma a ser visto.

 

Onde estou?

Você está navegando atualmente a O Grande Abismo categoria em Ensaios Sobre Loucura.